Sobre falar no casamento da sua melhor amiga

Muitas pessoas pediram para ler os votos que fiz no casamento da Luisa, minha melhor amiga, irmã e alma-gêmea. ❤

“Lu, quem viu a gente sentada no primeiro dia de aula da sétima série do Santo Agostinho uma ao lado da outra não imaginávamos que hoje estaríamos aqui. Aliás, não imaginávamos nem mesmo o quanto a nossa amizade se transformaria; Continue Lendo “Sobre falar no casamento da sua melhor amiga”

Somos todas vadias por Ruth Manus

Texto publicado em: http://emais.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/somos-todas-vadias/

Mulheres morrem, independentemente do que fazem ou de quem são.

Mulheres morrem todo dia. Homens também. Homens morrem de câncer, de enfarto, de bala perdida. Mulheres morrem de câncer, de enfarto, de bala perdida. Mas homens não morrem por serem homens. E mulheres morrem por serem mulheres. É uma lógica simples.

Mulheres morrem não apenas na chacina de Campinas. Mulheres morrem viajando na América Latina. Mulheres morrem no Oriente Médio. Mulheres morrem na China, na Índia, no Canadá. Morrem aí, do lado da sua casa. Morrem porque são mulheres. Porque nasceram mulheres e porque mulheres se fizeram.

Mulheres morrem por ciúmes. Morrem porque olharam para o lado. Morrem porque tentaram ir embora. Porque tentaram. Mulheres morrem porque atrasaram o jantar. Porque saíram para jantar. Porque quiseram uma vida que fosse além de servir o almoço e servir o jantar.

Mulheres morrem por serem mais bonitas do que deveriam. Por serem menos bonitas do que deveriam. Mulheres morrem porque sempre devem. Sempre estão devendo. Mulheres morrem por fazer muito sexo. Por fazer pouco sexo. Por não querer fazer sexo. Por pensar demais em sexo. Por pensar demais.

Mulheres morrem por causa da saia. Por causa da blusa. Do perfume. Do sapato. Da maquiagem. Do cabelo. Mulheres morrem porque alguém decidiu que poderia interpretar e julgar uma peça de roupa, a cor de um batom e um corte de cabelo. Cortes. Porque julgam que certos cortes não são para mulheres. E que outros são: o da navalha, o do canivete, o da faca.

Mulheres morrem e não são vítimas. Mulheres levam tiros, facadas, chutes na cabeça. E seguem sem ser a vítima. Mulheres provocam. Mulheres dão causa. Mulheres não medem consequências. Mulheres sempre poderiam ter feito melhor. Mulheres tentam avisar. Tentam denunciar. Mas são sempre elas que deveriam ter tomado mais cuidado. Ter ficado dentro de casa. Ou ter trancado a casa. Ou ter fugido de casa.

Poderia dizer que as mulheres que morrem são filhas de alguém. Esposas de alguém. Irmãs de alguém. Mães de alguém. Mas elas são mulheres, apenas mulheres. Que não deveriam precisar ser nada de ninguém para ter importância. Mas precisam. Deixou filhos, deixou um marido inconsolável, deixou um pai debruçado sobre seu caixão. Só assim elas importam. Porque se ela for só uma mulher, ela será só uma mulher.

Homens morrem. Morrem por causa do tráfico, por causa da briga, por causa do ódio. Homens não morrem por questões de gênero. Mulheres morrem. Morrem porque seguem não sendo livres. Livres para opinar, livres para mudar de ideia, livres para ir embora, livres para dizer “nunca mais”.

Mulheres morrem porque homens resolvem que elas são vadias. Vadias por não aguentar mais. Vadias por dizer basta.

Vadias por errar como tantos deles erram. Vadias por querer o que todos eles querem. Vadias por acreditar que poderiam ser iguais. Vadias por querer viver.

Mulheres morrem porque, independentemente do que façam, alguém se achará no direito de matá-la por julgá-la vadia. Não é um direito?! No fim, não importa quem somos, o que fazemos ou o quanto merecemos viver, porque aos olhos de alguém somos todas vadias e isso é o que basta para que mulheres morram.

A vida é um Triatlo

Por: Ruth Manus

A vida é um triatlo

No qual 30 jogadores de rugby correm atrás de você, te espetando com espadas de esgrima.

6:30 da manhã, o despertador toca como o tiro da largada da corrida. Eu não entendo nada. Hoje é sábado? É sexta? Não, ainda é quarta. Ai Deus. Minha cama parece aquela piscina de 5 metros de profundidade dos saltos ornamentais, tento sair mas não alcanço a borda, fico balançando as pernas, afundando no meio das cobertas, nem tem escadinha na borda pra ajudar.

Levanto, finalmente, como um cavalo enfurecido que não está sabendo lidar com os obstáculos da prova de hipismo. Tropeço num par de sapatos, chuto o pé da mesinha, cai tudo, dou de cara com a porta do banheiro que eu achei que estava aberta, dou coice em quem falar comigo. Não faz nem 10 minutos que eu acordei e já estou mais puto do que um treinador chinês de halterofilismo.

Entro no banho e, de repente, lembro que marquei uma reunião às 8 da manhã. Começa então uma série de movimentos cravados no melhor estilo nado sincronizado. Estica os braços/enfia a roupa/pula dentro do sapato/estica o braço direito/ pendura a bolsa no braço/estica o outro braço/pega uma banana/abre a porta/segura o celular na orelha com o ombrinho/dá uns pulinhos para não perder o elevador.

No transporte público rola um tipo de partida de rugby: um monte de gente troglodita te atropelando e você segurando suas coisinhas, querendo apenas sobreviver até o seu destino. Olho para o relógio: 7:42. Penso no meu chefe. É uma mistura entre o treinador chinês e o jogador de rugby da outra equipe.

Chego no trabalho como uma ginasta correndo para tomar impulso. Dou um mortal para dentro do banheiro, lavo as mãos, lavo rosto, dou um mortal para trás para pegar a pasta na minha mesa, duplo twist carpado para a sala de reuniões, 8:01, quase levanto os dois braços, estufo o peito e viro pra lá e pra cá, para que aplaudam minha chegada.

Começa então a partida de tênis de mesa: você trouxe o relatório?/não, quem ia trazer o relatório era você/eu não, o Tavares me disse que você tinha os dados/mas a Maria Julia disse que você estava responsável por esse cliente/eu só trouxe os documentos/ eu só trouxe a proposta.

De tênis de mesa, a reunião se transforma em um tatame. Todo mundo se derrubando gentilmente. Aparecem umas informações desconhecidas que parecem espadas de esgrima, que começam a espetar sua barriga e te deixar meio em pânico. Mas você mantém sua cara amigável, que lembra um russo que faz arremesso de peso. A reunião demora mais que partida boa de tênis. Todo mundo exausto, se odiando um pouquinho, mas mantendo o espírito esportivo, “nos vemos no almoço!”.

Então vem o almoço. Foi dada a largada para o revezamento no self service. Quando você vê já está comendo lasanha com alface, filé de frango, purê de batata, linguiça calabresa, spaghetti, farofa, tomate, vagem, arroz, lentilha, feijão preto, strogonoff e polenta frita. Sai de lá com o porte perfeito para ir direto para uma luta greco romana.

Mas não. Volta para as lutas do trabalho mesmo. Judô com o Almeida do financeiro que esqueceu a sua fatura, karatê com o motoboy que esqueceu de trazer seus papéis, taekwondo com você mesmo que esqueceu a senha do servidor. Depois é driblar o chefe, driblar o sono, driblar o pão de mel na mesa ao lado que todo dia você pensa em roubar da Vanusa.

Chego em casa, pego a correspondência. Conta de luz, conta de água, conta do celular, fatura do cartão, nocaute. Arranco os sapatos numa fração de segundos. Olho para a cama e nem preciso da vara para fazer um salto majestoso em cima dela. Arremesso a roupa suja no cesto. Pela distância são 3 pontos. Aponto o controle remoto de pilha fraca com a minha melhor pontaria na direção da TV.  Canal de esporte. Não posso perder os jogos olímpicos. Eles só acontecem a cada 4 anos.

Publicado em: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/a-vida-e-um-triatlo/