Sleep no more: um programa off Broadway em NYC

Minha curiosidade acerca do Sleep no more surgiu por já ter assistido Fuerza Bruta e Stomp antes e ter curtido bastante esse estilo mais alternativo das peças off Broadway. Recebi indicações e resolvi conhecer em uma visita que fiz a NYC em 2012.

Se você também está pensando em ir, esqueça qualquer referência de peças, tanto estilo Broadway quanto off Broadway. No Sleep no more, você tem uma experiência única, totalmente diferente de tudo que já viu antes. Para começar, o espetáculo (decidi chamar assim só para ter um nome) acontece no McKittrick Hotel, um antigo hotel que fica no distrito de Chelsea e foi escolhido pela companhia de teatro inglesa Punchdrunk como locação. São 5 andares e mais de 100 espaços – leia-se cômodos, já que é um hotel – diferentes dentro do mesmo prédio, com uma cenografia que remete à década de 1930.

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Enfim, vamos à minha experiência:

Ao chegar na porta do hotel, não há indicação alguma de que você está no lugar certo, a não ser uma fila para fazer o “check-in”. No guichê, fui recebida por um ator que me deu uma carta de baralho e uma máscara branca que deveria ser utilizada durante todo tempo dentro do hotel – essa é uma das regras para participação. Em seguida, todos que estávamos agendados para o mesmo horário ficamos aglomerados em um bar com jazz ao vivo e bebidas. Nesse momento, já percebíamos a presença de alguns atores (eles não usam máscaras) entre nós.

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Essas máscaras não são assustadoras?

Um ascensorista começou a dividir as pessoas em grupos, separando-as de acordo com a numeração da carta do baralho. Aí realmente começou a brincadeira: se você for acompanhado, tenha certeza de que passará todo o espetáculo longe da outra pessoa. O intuito é que essa experiência seja vivida por cada um individualmente e foi isso que fiz. Entrei no elevador com um grupo de pessoas que nunca tinha visto na vida, todas usando a mesma máscara que eu, e seguimos para algum andar do prédio. Não vou mentir, eu estava com medo!

Por mais de duas horas, diversos atores iam e vinham pelos cômodos, atuando e interagindo entre si. Nós, enquanto espectadores, podíamos ir além de meramente assistir a essas interações: nós podíamos acompanhar um ator, migrar de um ator para outro, subir ou descer as escadas para ver os outros personagens. Enfim, era um ambiente de total liberdade. É possível, inclusive, mexer em elementos do cenário. No fundo, você fica tentando a todo momento conectar as histórias que está vendo e, para isso, eu abri gavetas, li cartas, mexi em armários. Foi um momento meio Sherlock Holmes da minha vida.

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Sim, os atores estão nus na banheira e nós, os mascarados, damos vazão ao nosso espítito “voyeur”.

No início, me informaram mais uma regra: os atores não podem ser tocados. Esqueceram de me avisar apenas que os atores poderiam sim interagir comigo de outras formas, que eu não era um ser invisível como estava me colocando. Em um determinado momento, eu era a única pessoa seguindo uma mulher dentro de um quarto e, assim que parei para olhar um abajur, ela saiu e me trancou dentro desse quarto! Demorou uns 5 segundos até que eu percebesse que existia uma chave ao lado da porta, mas foi o suficiente para eu achar aquilo o espetáculo mais incrível que já vi (e morrer de medo também, vai ….)!

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Se não tivesse que ir embora, teria aberto todas essas gavetas. Fato!

Enfim, passei duas horas nessa aventura buscando entender a história dos personagens, a relação entre eles e os sentimentos que estavam exprimindo (afinal, é um espetáculo praticamente mudo). Ao término das duas horas, todos os atores conduziram os espectadores de alguma forma para o mesmo salão do início, onde a história enfim teve uma conclusão – quer dizer, teve?.

Agora vamos às minhas conclusões:

– comprei o livro do espetáculo para tentar entender a história e….. não entendi.

– entender a história está longe de ser o objetivo do espetáculo, mas isso você só percebe depois que passa por essa experiência.

– não é um programa para claustrofóbicos.

– dá para ir sozinho, até porque se você não for, ficará.

– é uma experiência de “viver e fazer arte”, algo que eu nunca tinha sentido antes. Ficar a um palmo de atores simplesmente observando-os e tentando entender o que aqueles olhares passam é INCRÍVEL!

 

E aí, alguém aqui já foi? O que acharam?