Svetlana – Shift 2 entrevista Mariana Iacia

Era uma sexta-feira, às sete horas da noite – horário em que praticamente todas as lojas de Ipanema fecham – e nós chegamos à Svetlana para conversarmos com a Mariana Iacia, nossa antiga companheira de colégio e criadora da primeira marca de moda vegana no Brasil. Fazia muito tempo que não falávamos com ela, estava na hora de fechar a loja, a Mariana não estava se sentindo tão bem, mas ainda assim fomos recebidas com o maior carinho e disponibilidade do mundo.

Nosso objetivo inicial no bate-papo com ela era conhecer mais a marca, o porquê do veganismo, entender como a Mariana construiu sua carreira e saber um pouco sobre a sua experiência profissional com grandes nomes da moda internacional. Digo objetivo inicial porque acabamos surpreendidas: saímos totalmente deslumbradas com a proposta da Svetlana e a forma de trabalho que a Mariana prega, além de loucas para comprarmos todas as peças da loja.

Antes de entrarmos na conversa em si, precisamos contar o que mais nos impressionou na conversa. Primeiramente, descobrimos na Mariana um ser humano incrível, especialmente no que diz respeito à luta pelo empoderamento das mulheres. Todas as suas peças são produzidas por mulheres que sofreram com algum tipo de violência doméstica e a Mariana faz questão de apoiar artistas da periferia, como o Dreamteam do Passinho.

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Esse body lindo é da Svetlana!

Vamos à nossa conversa!

S2: De onde veio o nome Svetlana?

M: Eu morava em NY e conheci um sérvio, com quem comecei a namorar. Foi então que comecei a aprender sérvio, até porque me interessava muito pela história da separação da Iugoslávia, uma história cheia de detalhes e até hoje em constante mudança. Descobri que em todos os países do leste europeu “Svet” significava luz ou algo associado a raio de sol e brilho e eu achei isso bem bonitinho. Nessa época, eu sempre falava para o meu namorado “ah quando a gente tiver filha, o nome dela vai ser Svetlana”, um nome bem comum nesses países e com uma pronúncia gostosa para mim. Quando criei a marca do zero, entrando nesse negócio sozinha, largando o emprego que eu tinha na Gucci e me tornando uma empreendedora, me senti uma mulher corajosa. Então, eu pensei: eu quero vender para mulheres corajosas, fortes, de personalidade; não quero vender para uma bobona qualquer. E ao lembrar do nome Svetlana, comecei a pesquisar a história de mulheres com esse nome. Foi então que tive uma surpresa: eu amava uma escritora americana cujo nome era Lana Peters, que escrevia uns poemas bem dramáticos, tristes – e eu sou meio dramática – e descobri que ela, na verdade se chamava Svetlana Stálina, a filha do Stalin. Essa menina era apaixonada por um judeu e seu pai, por conta do extremismo, matou não apenas o seu amor como também a sua mãe. Ela ficou muito revoltada e, por isso, decidiu pedir asilo político em outros lugares, como os Estados Unidos. Só que ela foi atacada nos Estados Unidos porque achavam que ela estava no país como espiã, mas na verdade ela realmente estava contra o pai e a sua vida foi combater o legado de Stalin. Foi então que ela trocou o nome para Lana e utilizou Lana Peters como pseudônimo. Eu pensei: gente, não tem uma mulher mais corajosa no mundo que uma que brigou com Stalin e foi morar nos Estados Unidos para combater o regime do ditador! Depois descobri que muitas outras mulheres que fizeram história também se chamavam Svetlana.

“Eu quero vender para mulheres corajosas, fortes, de personalidade; não quero vender para uma bobona qualquer.”

S2: Como surgiu a ideia de ter uma marca e por que uma marca vegana?

M: Então, a ideia de ter uma marca surgiu porque eu trabalhava fora e via que não tinha muita possibilidade de crescimento no escritório americano da Stella McCartney (o principal fica em Londres). Eu gostava muito de fazer estampa e dentro da marca dela eu não tinha muito espaço para isso, então comecei a fazer algumas peças para multimarcas americanas e brasileiras e percebi que as pessoas gostavam muito, realmente tinha uma boa saída. De início era bem pequena até entender como funcionava o mercado. Eu não queria fazer uma coisa muito bobinha, igual a tudo; queria abrir uma marca diferente do que existia, com estampas diferentes, queria sair do padrão. Sobre ser vegana, eu virei vegetariana quando era pequena e vi um vídeo mostrando como arrancavam peles de focas bebês, sofro só de lembrar. Eu nunca mais quis comer nada de animais, mas não me ligava em couro, peles, essas coisas, até porque não é tão comum no Brasil. Só que em NY, eu fui trabalhar em uma marca que se chamava Alberta Ferretti e estava tudo bem até chegar a coleção de inverno. Me mandaram para a loja na parte de pele de animal e eu não quis ir, cheguei a discuti com a minha chefe. Era um salão só com pele de animal, só via maldade e as pessoas comprando. Cheguei em casa chorando muito por trabalhar num lugar contra todos os meus princípios e no dia seguinte pedi demissão. Minha chefe sugeriu que eu trabalhasse em outra marca da empresa sem pele de animal, mas eu me sentia mal só de estar no mesmo grupo.

Foi então que virei vegana, comecei a pesquisar as marcas que não trabalhavam com animais e cheguei até a Stella McCartney. Mandei vários e-mails, fui várias vezes até a sede, implorei por um trabalho, contei do meu veganismo, mas a galera que trabalhava lá era pouco idealista e bem estilo “O diabo veste Prada”. Acabaram me dando uma chance porque eu era a única pessoa que ligava para essa coisa do veganismo. Foi bacana porque a marca tinha um projeto com mulheres na África, outro com animais, não usava nem mesmo lã nas peças. Aprendi muito, especialmente as pequenas coisas do veganismo na moda, que vai muito além de apenas não usar couro ou pele. Só que chegou num ponto em que eu já não tinha muita possibilidade de crescimento dentro da empresa e mesmo que houvesse, demoraria muito. Então pensei em voltar para o Brasil e criar uma marca vegana, sem nem saber que ainda não existia uma marca de moda vegana no país.

S2: Como foi trabalhar com a Stella McCartney e o que você mais admira nela?

M: Às vezes a Stella ia para NY e eu a encontrava nos desfiles. Ela era muito fofa, fazia questão de agradecer pela ajuda. É era uma pessoa muito fácil de lidar, não é metida, não. O que eu mais admiro nela é a humildade. Na primeira vez que a vi, eu era só uma estagiária e ela me pediu um favor bobo. Eu fiz e depois ela fez questão de ir até mim só para agradecer por eu ter feito aquele favor bobo. Eu pensei: ‘gente, que fofa’.

S2: De que forma a filosofia vegan influencia na criação das coleções?

M: Hoje em dia é mais fácil trabalhar com materiais veganos porque tem muito mais fornecedores, né. Mas não consegui ainda criar um sapato de boa qualidade, por exemplo.

[Alguns dias depois da nossa conversa a Svetlana fechou uma parceria com a Insecta Shoes e na semana que vem a loja passará a vender sapatos liiindos e veganos!]

S2: Quando e como você começou na carreira?

M: Fiz Desenho Industrial e produzia flyer físico de eventos. Depois comecei a me interessar por estampas e as estampas me levaram para o mundo da moda. Me interessei tanto que resolvi fazer uma pós-graduação em moda em NY.

S2: De que forma o estilo carioca está presente na loja? 

M: De forma nenhuma (risos). Tanto que as pessoas entram aqui e falam: ‘nossa, que loja diferente’.

S2: De que país vc acha que é sua loja, então?

M: Algumas pessoas me falaram de Holanda, mas tenho muita inspiração no street style de Berlim, que eu adoro, e também de NY né, que é essa mistura toda.

 

S2: O que mais te inspira na criação das peças?

M: Filmes! Eu amo cinema e até fiz uma pós-graduação nisso. Todas as coleções têm nomes e foram inspiradas em filmes, como “A teta assustada” (Peru), de Claudia Llosa, “A montanha sagrada” (EUA), de Alejandro Jodorowsky… Já teve coleção inspirada no “Anjo exterminador” (ESP), do Luis Buñuel…

S2: O que a Svetlana está preparando para a próxima estação?

M: A próxima coleção é inspirada no filme polonês “Madre Joana dos Anjos”, do Jerzy Kawalerowicz, e continuará com essa pegada de feminismo, mantendo, obviamente, o posicionamento vegano da marca, que é sua essência.

 

Notícia boa para quem não é do Rio de Janeiro (e para quem é também!): essas roupas lindas da Svetlana agora podem ser compradas na internet, na loja virtual da marca. Garantimos roupas lindas, um conceito inspirador e uma marca desenvolvida por um ser humano admirável!

Ah, e para quem quiser conhecer a loja física, a Svetlana fica na Avenida Visconde de Pirajá, 580, 2º andar – Ipanema.

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Autor: Lucy

Formada em Publicidade & Propaganda, é curiosa de nascença e carteirinha. Ah, e apaixonada também: por viagens, por gastronomia, por moda, por marketing e tudo mais de curioso o mundo tiver para oferecer! S2

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